As bactérias e seu uso farmacoterapêutico
A maioria das pessoas, ao ouvir a
palavra “bactéria”, torcem o nariz. De fato, esses seres microscópicos possuem
uma má fama justificável: característicos da falta de higiene, causadores de
doenças, associados a falta de saneamento básico e o pesadelo das práticas de
biossegurança em laboratórios. Porém, é preciso ressaltar que os microrganismos
do Reino Monera estão em todos os lugares - até naqueles em que você pensa
estar extremamente limpos - e têm uma importância notável para a raça humana.
Estudos mostram como características da
bactéria, associadas a engenharia genética, podem auxiliar no tratamento de
diversas doenças. Ironicamente, algumas bactérias produzem metabólitos
secundários, que são moléculas que podem ser usadas para a produção de antibióticos
como a eritromicina, por exemplo. Além disso, sua contribuição é extremamente
importante para a população diabética: é possível utilizar bactérias para a
produção de insulina.
Naturalmente, a insulina é
produzida pelo pâncreas, nas Ilhotas de Langerhans, sendo necessária para o
controle de açúcar no sangue. Esse hormônio auxilia a entrada de glicose na
célula, uma vez que elas precisam de carboidrato para ter energia e executar
suas atividades. Com o comprometimento da insulina, a glicose não consegue entrar
na célula, isto é, permanece no sangue (glicemia). Como o acúmulo gera excessos
(hiperglicemia), surge o diabetes mellitus que, para ser controlado, o indivíduo
acometido precisa adquirir insulina além daquela produzida pelo próprio corpo.
Assim, recorre-se às insulinas feitas em laboratório, que podem ser obtidas
através de suínos, bovinos e, não menos importante, das bactérias
recombinantes.
Para isso, a engenharia genética
modifica os microrganismos para que eles produzam insulina via DNA recombinante,
usando ferramentas como a clonagem e expressão gênica. Assim, pode-se citar por
exemplo o uso da Escherichia coli modificada que, uma vez
isolando o RNAm do gene codificante de insulina, seu DNA complementar é
inserido em uma estrutura característica das bactérias: o plasmídeo. Por vezes
relacionado a alta virulência e fator de resistência a antibióticos, essa
molécula de DNA bacteriano extracromossômica, já com o gene que codifica o hormônio
(modificação), é reinserida na E.coli, que produzirá em grande
escala proteínas que, após a extração e purificação em laboratório, serão utilizadas como
tratamento para diabetes.
Além disso, é impossível falar do uso
farmacêutico de bactérias sem citar a bactéria Clostridium botulinum.
Apesar de suas toxinas, quando presentes em alimentos ingeridos pelo ser
humano, causarem o botulismo (intoxicação que pode causar dificuldade para
engolir e falar, fraqueza e paralisia, podendo ser fatal), a toxina botulínica
também é utilizada de forma benéfica, a citar em procedimentos estéticos com o
nome de “Botox”, alivia rugas e linhas de expressão para quem se incomoda com
os traços de envelhecimento.
A toxina botulínica também é utilizada
para o tratamento da dor, por causa do mesmo mecanismo de ação de quem a
procura para fins estéticos. Grosso modo, o sistema nervoso (SN) comanda sinais
excitatórios, isto é, “manda” acetilcolina para as fibras musculares, induzindo
contração. Uma vez que a acetilcolina é a “ponte” do sistema neuromotor (passagem
do impulso nervoso dos neurônios para as células dos músculos), a toxina
botulínica bloqueia esse caminho do neurotransmissor, impedindo a contração
muscular e interrompendo a sensação de dor. Porém, é importante
lembrar que seu uso terapêutico é diferente da intoxicação, pois ela é benéfica
apenas quando usada da maneira correta. A sua intoxicação (botulismo) pode,
dentre algumas possibilidades, causar uma parada respiratória fatal devido ao
bloqueio na ponte SN-músculo.
Referências
Pesquisa FAPESP, Insulina brasileira https://revistapesquisa.fapesp.br/2009/03/01/insulina-brasileira/
Produção do hormônio insulina à base de técnicas da moderna engenharia genética
Produção dos hormônios do crescimento e pró-insulina humana
em plantas transgênicas de milho https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/485567/1/Producaohormonios.pdf
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-70942009000300013
Agência FAPESP, Pesquisadores buscam novos antibióticos em bactérias no solo
http://agencia.fapesp.br/pesquisadores-buscam-novos-antibioticos-em-bacterias-no-solo/15015/
Agência FAPESP, Pesquisadores buscam novos antibióticos em bactérias no solo
http://agencia.fapesp.br/pesquisadores-buscam-novos-antibioticos-em-bacterias-no-solo/15015/
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